segunda-feira, 4 de julho de 2011

Você conhece a Mundial, empresa considerada o inesperado fenômeno da Bolsa?

A empresa que já fez alça para caixões, espadas para o exército brasileiro, lamparinas e até argolas para nariz de boi é hoje uma das maiores sensações da bolsa brasileira. No limbo do mercado de ações até pouco tempo, a Mundial S. A. viu seus papéis valorizarem 1.360% desde janeiro, sob o olhar atônito de analistas e investidores, que ainda tentam desvendar o que está acontecendo com a empresa gaúcha - agora, fabricante de botões, esmaltes e alicates de cutícula.

A empresa entrou o mês de abril com valor de mercado de R$ 78 milhões e encerrou junho na surpreendente faixa dos R$ 781 milhões, com o anúncio de que passará a integrar o Novo Mercado da Bovespa.

Por várias vezes, nos pregões que se seguiram a abril - mês da divulgação dos resultados - a Mundial chegou a ser uma das ações mais movimentadas na bolsa - atrás apenas de Vale e Petrobrás, as estrelas do mercado. Tanto destaque levou a Bovespa a pedir explicações.

Entre analistas, o boato mais forte é o de que a fabricante gaúcha está prestes a ser vendida para a empresa de bens de consumo Hypermarcas. Ambas negam o negócio. O presidente da Mundial, Michael Ceitlin, diz que o desempenho das ações é reflexo de uma intensa e longa reestruturação, que está sendo "coroada" agora com uma política de comunicação mais eficiente com o mercado. "Estávamos arrumando a casa. Ela ainda não está pronta, mas já pode receber visitas", diz o executivo.

Embora ainda seja definida por alguns varejistas como uma empresa "problemática" por conta do volume de dívidas, a virada da Mundial, de fato, chama a atenção. A companhia, que hoje fatura perto dos R$ 500 milhões, surgiu há um século com a união de duas empresas familiares do Rio Grande do Sul: a Eberle, fabricante de talheres, e a Zivi-Hércules, especializada em cutelaria.

O grupo, mais tarde controlado apenas pela família fundadora da Zivi, esteve perto de quebrar no início da década de 90 por causa dos altos índices de inflação, greve de funcionários e uma briga societária que praticamente paralisou a empresa. Michael Ceitlin, sobrinho-neto do fundador, não gosta de tocar no assunto e nos corredores da Mundial a história é tratada com restrições.

Contrário aos rumos da empresa, o atual presidente se aliou na época a um grupo de acionistas e destituiu os pais e o irmão da administração. "Ele era obcecado por profissionalizar a empresa", lembra um ex-funcionário do grupo que acompanhou de perto a disputa familiar.

Assim que assumiu a presidência, com a anuência dos demais acionistas, Ceitlin tratou de parcelar a dívida em 170 anos e vender operações que não faziam mais sentido para a empresa, como a produção de motor elétrico. De 9,3 mil funcionários em 1993 a Mundial passou a contar com uma equipe de 2,4 mil trabalhadores. "Hoje temos faturamento três vezes maior", diz.

Mais recentemente, a empresa colocou à venda terrenos no Rio Grande do Sul e anunciou uma captação de US$ 100 milhões em eurobonds - duas estratégias para se livrar do carma da dívida. "Nosso calcanhar de Aquiles continua sendo o passivo tributário", diz o diretor financeiro da Mundial, Marcelo Freitas. "Mas já demos o recado ao mercado que vamos conseguir sanar esse problema."

Em 2008, com a casa relativamente em ordem, a Mundial comprou a fabricante de esmaltes Impala para incrementar o segmento denominado de "personal care", que já tinha no portfólio os famosos alicates de cutícula. Embora pouco conhecida, a produção de botões metálicos e acessórios de confecção continua sendo o carro chefe da empresa. Por hora, são fabricados 1,5 milhão de botões sob encomenda para clientes como Renner e C&A.

A última tacada da Mundial foi dada no fim do ano passado, com a abertura de uma operação de varejo em Miami. Com dificuldades para entrar nas redes varejistas dos Estados Unidos, a empresa decidiu abrir seus próprios quiosques em shoppings locais - estratégia que pode ser levada para México e Canadá.

"Até pouco tempo, não sabíamos o que a empresa estava fazendo", diz Clodoir Vieira, analista da corretora Souza Barros. "Conhecer faz toda a diferença." A mudança de postura conquistou, em partes, o mercado. Agora, a sensação é de que a Mundial já foi longe demais.

Autora: Naiana Oscar - O Estado de S.Paulo

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