A Brasil Foods terá coragem de cortar a própria carne?
Carnes in natura e processadas geram 80% das vendas da empresa – e uma parte desse mercado não tem concorrentes imediatos
BRF terá que cortar a própria carne?
São Paulo – A Brasil Foods conseguiu uma vitória parcial no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), ao adiar o julgamento da fusão que lhe deu origem para o final do mês. Agora, a empresa corre para negociar uma proposta para que o negócio não seja reprovado. A dúvida é: onde estão as concessões que realmente importam para o Cade?
Mas e os outros 80% da receita? Segundo analistas, eles vêm do mercado de carnes processadas e in natura. Esse segmento responde, também, por mais de 90% da geração de caixa da companhia. "As carnes são, de longe, o setor mais importante para a Brasil Foods", afirmou Henrique Ribas, analista da Planner Corretora.
É claro que há outras empresas no mercado de carnes, e bem fortes – o JBS, maior frigorífico do mundo, a Marfrig, que conta com uma marca forte (Seara) e mesmo os americanos da Tyson Foods.
Pouco espaço
Mas, segundo as autoridades que fiscalizam a concorrência no país, é também um dos setores em que a Brasil Foods mais concentra mercado. De acordo com o parecer da Secretaria de Acompanha Econômico (SEAE), que embasou a análise do Cade, dos 62 tipos de produtos avaliados pelo órgão, Sadia e Perdigão, as empresas que deram origem à Brasil Foods, possuem sobreposição em 40.
Esses produtos foram agrupados em seis segmentos: pratos prontos congelados, pratos semi-prontos congelados, carnes processadas para consumo a frio, carnes processadas cozidas semi-prontas, carnes processadas curadas e margarinas. Esses segmentos se desdobram em 13 mercados relevantes.
Um dos critérios para se aprovar uma fusão é a capacidade de os concorrentes entrarem nesse mercado. O SEAE concluiu que há poucas chances de a Brasil Foods enfrentar novos concorrentes em diversas áreas. Dos 13 mercados relevantes listados, a entrada de novos rivais foi considerada improvável em oito. Destes, apenas um – o de margarinas – não está ligado a carnes processadas ou congeladas.
Marca forte
Segundo a SEAE, a marca é o atributo mais valorizado pelos consumidores no mercado de pratos semi-prontos congelados, à frente da qualidade e do preço, por exemplo. O mesmo ocorre com as carnes processadas para consumo a frio.
Aprovar a fusão no Cade virou, por isso, uma luta entre as concessões e a tentativa de preservar aquilo que é o centro de seus negócios – o mercado de carnes.
Vender centros de distribuição e algumas fábricas seria uma proposta que poderia preservar o coração da empresa, sem se desfazer da Sadia ou Perdigão. "Colocar à venda centros de distribuições e até mesmo algumas plantas seriam algumas das saídas", afirmou Eduardo Boccuzzi, sócio do escritório que leva seu nome.
É claro que se desfazer de parte da operação não será indolor. "Vender ativos sempre pesa de maneira negativa em um processo como o da BRF", disse Ricardo Inglez de Souza, responsável pela área de direito concorrencial, comércio internacional e consumidor do escritório Dias Carneiro.
Segundo ele, as restrições aplicadas no caso Ambev, julgado pelo Cade anos atrás, poderiam ser colocadas em prática também na BRF. "A Ambev foi orientada a dividir com terceiros seus centros de distribuições e também aproveitar a capacidade ociosa de suas plantas para desenvolver novas marcas. Opções como essas são saídas favoráveis para o mercado", afirmou Souza.
Ninguém sabe o que acontecerá, mas fato de o Conselho ter atendido a um pedido de adiamento da BRF mostra que o Cade está disposto a negociar. "A fusão tem chances de ser aprovada", disse Juliana Domingues, coordenadora do departamento de antitruste do escritório LO Baptista Advogados.
Mas é preciso saber qual é a disposição de a Brasil Foods oferecer concessões relevantes, que entrem no mérito dos mercados em que há mais concentração e menos chances de concorrência. Cortar na própria carne pode ser o único caminho para aprovar o negócio, ainda que ninguém goste de fazê-lo.
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